Gamine
Gamine (em francês) ou Waif (em inglês) é um estereótipo feminino caracterizado por mulheres que, por trás da aparência infantil, frágil, carente e que inspira proteção, ocultam malícia e preciosidade.
O termo foi cunhado em inglês em meados do século XIX (na obra de Thackeray em 1840 em uma de seus esquetes parisienses, por exemplo), mas no século XX ganhou nova conotação para designar moças magras, às vezes “molecas” (boyish), de olhos largos e cabelo curto (geralmente escuro), além de sedutoras e sexualmente instigantes.
O termo Gamine tem sido usado particularmente para mulheres nas artes cênicas (teatro, cinema e dança) e no mundo da moda. Nesse contexto, o termo em português mais próximo seria “pivete”, mas no contexto masculino (apesar de “gamine” normalmente ser entendido como um sentido adicional de estilo e teor chique). Por exemplo, em um comunicado de imprensa de 1964, o empresário Andrew Oldham descreveu a cantora Marianne Faithfull, então com 17 anos, como “tímida, melancólica, carente”; e o escritor e músico John Amis se referiu à atriz alemã Luise Rainer (nascida em 1910) como a “waif-wife” (esposa-pivete) de Paul Muni no filme The Good Earth de 1937.
Gamin(e) é muitas vezes relacionado ao inglês “game” (no sentido de espirituoso). A palavra francesa Gaminerie às vezes é usada em inglês com referência ao comportamento ou características de gamin(e)s.
No início do século XX, o cinema mudo levou à atenção do público diversas atrizes “gamine”. Entre elas havia a canadense Mary Pickford (1892-1979), que viria a ser a primeira “Queridinha da América” e, com seu marido Douglas Fairbanks e o amigo Charles Chaplin, foi uma das fundadoras da produtora United Artists; Lillian Gish (1893-1993), notavelmente em Way Down East (1920); e Louise Brooks (1906-86), cujo pentado curto “joãozinho” foi amplamente copiado nos anos 1920 e se tornou modelo de estilos tanto gamine quanto “boho-chic” (o estilo aparecera pela primeira vez no demi-monde de Paris antes da Primeira Guerra Mundial e entre as estudantes de arte londrinas durante a guerra). Em 1936, Chaplin escalou sua então parceira Paulette Goddard (1910-1990) como a gamine órfã de seu último filme mudo, Tempos Modernos.
Nos anos 1950, o termo “gamine” foi aplicado especialmente ao estilo e aparência da atriz belga Audrey Hepburn (1929-1993), particularmente nos filmes Sabrina (1954) e Funny Face (1957). Audrey também interpretou o papel da Gigi no teatro em Nova York (1951), numa peça baseada no romance homônimo (1945) de Colette, que havia “caçado” pessoalmente o talento da atriz durante filmagens em Monte Carlo. No cinema e em fotografias, o cabelo curto e a petite figure de Audrey criaram um “look” distinto e duradouro, definido por Don Macpherson, como “naïveté (ingenuidade) que não parece” e como “a primeira gamine a ser aceita como overpoweringly chic”.
Outras atrizes de cinema da época conhecidas como gamines foram Leslie Caron (n.1931), que interpretou o papel-título do musical Gigi; Jean Seberg (1938-79), mais conhecida por À bout de souffle (Acossado) (1960) de Jean-Luc Godard; Jean Simmons (n.1929), por exemplo, em Angel Face (1952); e Rita Tushingham (b.1940), whose first starring role was in A Taste of Honey (1961). A cantora francesa Juliette Greco (n.1926), que emergiu de uma Paris boêmia no final da década de 1940 para tornar-se uma estrela internacional nos anos 1950, também tinha características gamine.
De várias formas, o “look gamine” dos anos 1950 abriu caminho para o sucesso das modelos inglesas Jean Shrimpton (n.1942), uma das primeiras a promover a minissaia em 1965, Twiggy (n. Lesley Hornby, 1949), que em meados da década tornou-se o rosto-símbolo da Swinging London, e Kate Moss (n.1974), associada nos anos 1990 ao estilo “waif” e que, notavelmente numa campanha publicitária para a Calvin Klein em 1997, tornou-se conhecida como “heroína chic”. Moss criou uma moda de modelos “wafer” e magras que foi satirizada pela tirinha de Neil Kerber “Supermodels”, na revista Private Eye. Na crítica do filme O Diabo Veste Prada (2006), o crítico David Denby descreveu uma “montagem de belas semi-indigentes puxando lingeries e roupas enquanto se vestem para trabalhar… como as cenas de soldados carregando e travando metralhadoras nos filmes de guerra”.
Entre outras mulheres que foram descritas como gamines, incluem-se a atriz dinamarquesa Anna Karina (n.1940); as atrizes estadunidenses Elizabeth Hartman (1943-1987), Mia Farrow (n.1945), Sissy Spacek (n.1949), Winona Ryder (n.1971), Gwyneth Paltrow (n.1972) e Calista Flockhart (n.1964), protagonista do seriado Ally McBeal (1997-2002); as atrizes inglesas Suzanna Hamilton (n.1960), Helena Bonham Carter (n.1966), Tara Fitzgerald (n.1967), Olivia Williams (n.1968), Rachel Weisz (n.1971) e Keira Knightley (n.1985), cujo corte de cabelo curto “gamine”, adotado em 2005, foi descrito como “o penteado” do ano; a atriz portuguesa Maria de Medeiros (b.1965); as atrizes francesas Juliette Binoche (n. 1964) e Vanessa Paradis (n. 1972); a modelo nova-iorquina Tina Chow (1951-92), cuja “aparência gamine look fez dela a querida dos fotógrafos Cecil Beaton e Arthur Elgort”; a tenista russa Anastasia Miskina (b.1981), que foi campeã do Aberto da França em 2004; e Claudia Labadie of the London vocal duo, Gamine.
Penelope Chetwode (1910-86), mais tarde Lady Betjeman, esposa do poeta John Betjeman, foi descrita pelo biógrafo de seu marido A. N. Wilson como “gamine no geral, mas com seios fartos”. Corinne Bailey Rae alega ter sido chamada de gamine na cançÃo Choux Pastry Heart (2005).
Entre personagens gamine em filmes, destaca-se Bree Daniel, a prostituta interpretada por Jane Fonda (n. 1937) em Klute (1971), cujo penteado epônimo era chamado de “Klute shag”; Nikita (Anne Parillaud, n.1960), a junkie punk, no filme de Luc Besson de 1990, que evitava a pena de morte ao se tornar uma assassina do serviço secreto; e Amélie Poulain (Audrey Tautou, n.1978) na comédia romântica de 2001 ambientada em Paris.
